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sopa de letrinhas: novembro 2010

O poder das palavras

Gosto muito de jogos de palavras, de combinar os sons, os sentidos, as várias possibilidades de usar a linguagem de modo criativo e inovador.
Letras de música, poemas e até piadas são ótimos exemplos de como a língua pode ser utilizada para nos fazer pensar, rir ou chorar.
Mergulhe neste universo comigo e vamos tomar uma sopa de letrinhas!

Abraços!!!

sábado, 6 de novembro de 2010

Natal

03/11/2010


Árvore de Natal com mãozinhas

Amei este trabalho e resolvi divulgá-lo.  
Acesse o blog http://pragentemiuda.blogspot.com/ e encontre outras maravilhas.

Que tal uma crônica?????????

Como é duro cancelar!

Walcyr Carrasco


Recentemente, mudei de banco. Recebi novo cartão de crédito, vinculado à minha nova conta. Resolvi me desligar do anterior, da mesma empresa. Telefonei. Uma simpática voz cibernética me pediu para digitar o número do cartão. Apertei os olhos. A luz, fraca. A custo consegui distinguir os números. Teclei. A mesma voz me cumprimentou, como se a melhor coisa do mundo fosse receber minha ligação. Em seguida, começou.
– Para x, digite 2, para y digite 4...
Depois de oito opções minha cabeça fervia. A custo consegui distinguir a correta: falar com um dos atendentes. A voz retornou.
– No momento todos os nossos ramais estão ocupados...
Iniciou-se uma música. Terminou. Foi repetida uma, duas, três vezes. Já ouvi dizer, mas não posso confirmar, que se trata de uma técnica. Muita gente desiste enquanto espera. Facilita a vida de quem está do outro lado. Mas eu precisava cancelar o cartão. Finalmente, uma voz humana vibrando de felicidade me atendeu.
– Fulana, às suas ordens.
Expliquei. Queria cancelar o cartão. Perguntou-se o motivo.
– Já tenho outro igual.
A voz discorreu a respeito de vantagens acumuladas etc. etc. Superdidática, como se falasse com um asno. Seus argumentos fizeram com que eu me sentisse realmente um asno por não aproveitar todas aquelas vantagens. Mas sou teimoso como um deles. Empaquei.
– Quero cancelar, sim!
Fui interrogado: nome do pai, data de nascimento, alguns dados pessoais. Normas de segurança. Terminou. Suspirei.
– Então, está cancelado?
– Aguarde na linha, o senhor vai ser transferido para o departamento técnico.
– O que estou fazendo até agora? Já dei o nome da minha família inteira. Só faltou dar o número do meu sapato.
Nova musiquinha. Nova voz simpática, desta vez de um rapaz.
– Eu gostaria de lembrar que o senhor já tem vantagens nesse cartão e não vale a pena...
Socorro! Foi preciso quase uma hora de telefone e muita, muita teimosia para me safar. É surpreendente como é difícil cancelar certos serviços! Não é só com cartão de crédito. Eu tinha o celular de uma companhia. Não pegava na minha chácara. Troquei por outro, que tinha uma torre enorme ao lado. Para cancelar foram dois meses.
– Todos os nossos ramais estão ocupados. Por favor...
Finalmente um amigo cheio de paciência pendurou-se ao telefone. Ficou com calo no indicador de tanto teclar, mas conseguiu. Agarrei o aparelho.
– Quero cancelar...
– Data de nascimento, por favor. Nome do pai. Número do CPF. Local de nascimento.
Depois de um bom tempo, ergo o dedo para desligar.
– Está cancelada a assinatura?
– Aguarde, o senhor vai falar com o departamento de engenharia.
Aiiiiiii! Lá fui eu outra vez: data, número... Explicação: por que não queria mais? Vontade de gritar.
– Não quero e pronto! Acabou!
Outro dia, ganhei uma caixa postal da Telefonica. Só que eu não queria o mimo. O serviço foi disponibilizado automaticamente no meu número. Liguei. Depois da sucessão de dígitos, fui atendido.
– Eu não desejo...
– Mas é um serviço oferecido sem ônus adicional.
– Mesmo assim eu não quero. Prefiro a secretária convencional, que acende luzinha quando tem mensagem.
– O senhor não está entendendo. Essa caixa postal pode ser acionada...
Deu vontade de morder o telefone. Exaurido, consegui. Vinte minutos.
Cada vez é maior o número de empresas que dificultam o cancelamento de serviços. Na hora de fechar negócio é facílimo. Para se livrar, é preciso ter nervos! Falando francamente, às vezes nem é pelo dinheiro. Mas é duro sentir que alguém está me fazendo de idiota.

Esta crônica está disponível em http://veja.abril.com.br/vejasp/030903/cronica.html